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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

A Espera

Pedro, 72 anos, sentado no banco, era o maestro da espera. Sua voz interior sussurrava: "A vida é um espetáculo, e eu tenho o melhor assento."

Enquanto aguardava, o mundo girava ao redor. O barulho dos carros, um coro distante. O aroma de combustível, um perfume amargo. Pedro sentia cada fio de ar, cada sombra que dançava.

Seus pensamentos navegavam pelas lembranças: juventude, amores, perdas. A vida, um mosaico de sensações. Cada pedaço, uma história.

Ao redor, um casal, de mãos dadas, mas olhares distantes, discutia sobre o peso da vida. Sussurros tensos, como gotas de chuva em telhado de zinco.

Uma criança, com risos contagiantes, empurrava um carrinho de plástico na calçada. O barulho das rodas no asfalto era música para Pedro.

E, ao lado, um jovem dedilhava o violão. Acordes tristes, esperançosos. Sua melodia se misturava ao barulho da cidade.

Pedro sentia essas histórias, sem precisar de palavras. O casal, a criança, o músico – todos eram atores em seu teatro interior.

O rugido dos freios quebrou o encanto. O ônibus, um monstro gentil, parou ao lado. Pedro reconheceu o som, o cheiro, a vibração.

Ele se levantou, seguro, e estendeu a mão. O motorista, um fantasma bondoso, ajudou-o a subir.

Enquanto o ônibus partia, Pedro sentiu o vento no rosto. A cidade, um borrão de sons e cheiros. Ele sorriu, sabendo que estava em casa, no seu mundo de sombras e luzes.

sábado, 14 de dezembro de 2024

Quatorze Horas


O som metálico, como um relógio enferrujado, ecoa indiferente à surdez dos passageiros. Emaranhados em braços inanimados, eles nada vêem. Ângela, cercada pela escuridão, silêncio e inércia, reflete sobre sua vida.


Sirenes uivam, cães latem, mulheres gritam, homens cochicham e crianças observam com olhares puros. O carro aniquilado, após perder controle, choca-se violentamente contra um poste na Avenida Cardoso de Lima.


- "Fonseca, você e três homens, precisamos agir rápido!" - ordena o capitão.

- "Compreendido, capitão!" - responde Fonseca.

- "Amaral, Silva, Soares, sigam!" - comanda o capitão.


Como uma ópera trágica, as serras dos bombeiros cortam o metal retorcido, gerando berros descontrolados ao longe.


- "Doutor Fellinni, prepare sua equipe para o salvamento!" - instrui o capitão.


"Por que desistir, Ângela? Sua carreira como atriz promete brilhar!", questiona Tom, seu companheiro de palco.


"Não aguento mais, Tom. Amanhã, serei forçada a abandonar o palco para trabalhar no emprego que meus pais arrumaram. Sem apoio, terei que renunciar ao meu sonho", responde Ângela, com voz trêmula.


A tristeza envolveu Ângela. Seus sonhos, sufocados pelas expectativas familiares. Agora, no coma, restam apenas lembranças.


Os passos de Ângela, decidimos, caminhavam ao som de valsa.


"Eis minha estréia, finalmente!"


Há poucos metros da cortina aveludada já ouve os sons da platéia, ansiosa e inquieta.


Os atores se abraçam, confiantes. Tom, Ângela, Chico e Helena sorridentes se olham e como de costume: "Vá a merda"! 


Finalmente as cortinas se abrem. A reação do público é fenomenal. Nas primeiras fileiras Ângela pode observar seus pais, Maria e Antônio, em estado de êxtase.


Ângela, por um instante imagina a ouvir um som peculiar. Como um tic-toc em seus ouvidos, mas não lhe dá atenção. Nada poderia impedir agora, tal emoção.


Habilidosos e muito bem sintonizados os atores brilham entre frases de alegria e tristeza, sombra e luz, melancolia e excitação, amor e perda, ódio e perdão. 


A platéia, por sua vez, não contém aplausos, mesmo  fora de sincronia, desejando sentir cada momento daquela empolgação.


- "Os sinais de Ângela estão muito baixos, doutor, informa o enfermeiro."


No hospital Nossa Senhora dos Milagres, o clima, como não poderia deixar de ser, é mórbido. Os pais de Ângela não tiveram tanta sorte e não terão a chance de ver a possível recuperação de sua filha. 


- "Enfermeiro Rodrigues, continue com os cuidados. Vou avisar a família sobre os pais de Ângela. Infelizmente não houve muito o que pudesse ter sido feito.

- "Sim, doutor. Cá estarei".


De mãos dadas, Ângela e sua trupe, agradecem ao público, recheados de emoção e contentamento.


Ao levemente erguer sua cabeça, Ângela nota uma sutil diferença no teatro. Uma luz branca cegando seus olhos a incomoda. O som do tic-toc mais rápido e estridente a incomoda. 


"Poderia eu estar ficando louca?" - pensa Ângela.


Ela observa com mais atenção, mas nesse momento a intensa luz a cega cada vez mais, o tic-toc a enlouquece...


De dentro da luz vê a imagem de um relógio: treze  horas e cinquenta minutos.


 A platéia sumira, a trupe lá não estava mais. Um cheiro mórbido toma conta de seu corpo. Sensações de aperto, arrepios e choques invadem-na . Choros, gritos e lamúrias são ouvidas...o tic-toc cada vez menos intenso. Olha ao seu redor: o relógio e o branco. 


O angustiante tic-toc dá lugar a uma constante linha sonora. 


Quatorze horas.


terça-feira, 10 de dezembro de 2024


Era uma vez no Jardim.


Nos jardins da biblioteca de Uberaba,  o sol poente iluminava o reencontro de dois amigos. Frade Francisco, com sua batina simples, e Ruan Barbosa, com seu sorriso irônico.


"Quanto tempo, Ruan! O que te traz de volta?", perguntou Frade Francisco, abrindo os braços com um sorriso de lado, típico de alguém que a curiosidade provaca.


"A busca pela verdade", respondeu Ruan, "e para ser honesto, talvez essa seja uma procura inútil, pois aparentemente estou ficando escravo dela também.”


Frade Francisco sorriu. "Sim, mas e a fé Ruan? Ela não poderia ser um belo mecanismo para livrar-se dessa sensação de grilhões que pespontam seus pensamentos irriquietos?"


Ruan ergueu uma sobrancelha. "A ciência não pode provar a existência de Deus, mas pode provar a existência da nossa busca por significado."


"Um belo argumento para conduzir a responsabilidade de uma busca para outra.", diz em um tom brincalhão. “Veja Ruan,  procurar um sentido para nossa existência talvez seja exatamente desvendarmos as nossas motivações,  e que pelo que entendo, elas, as motivações, vem antes do próprio sentido. Creio, disse Frade Francisco, "a fé é um salto no escuro, mas a ciência é um mergulho no desconhecido. E se formos apenas uma ilusão?.”


Ruan sorriu. "Então, somos ilusões brilhantes. A essência humana existe, Francisco.  Eu quero prová-lo."


Frade Francisco balançou a cabeça. "A prova não é necessária. A busca é o que nos faz humanos."


Ruan, aparentemente não satisfeito, questiona: “mas meu amigo, e a fé? Como tê-la se não posso prová-la?”


“Eis a motivação da fé por si própria. É como um espelho refletindo a si mesmo ao infinito.  Veja: Se você entender como um “deus”, esse rapaz que neste momento está escrevendo essa crônica, nós talvez apenas existamos porque ele nos criou. Estendeu-nos  esse jardim, esse outono acinzentado, as flores vermelhas naquele canto, inclusive está fazendo tudo isso neste exato momento.”


“Como assim Frade?” 


“Pois bem, temos um criador. Mas e ele? Também possui um? Não sabemos e nem ele. A única coisa que ele sabe é que o café dele está acabando e precisa de um pouco mais para enviar a crônica aos amigos.”  Sorri, Frade Francisco ao perceber o desespero de Ruan.”


"Frade, também preciso de um pouco de seu vinho."

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024


Uma Jornada Filosófica


A Insignificância

João sentia-se perdido, como um navio sem rumo em um mar de ideias. Sua vida parecia sem propósito. Um dia, enquanto caminhava pelo parque, encontrou Dr. Eisenstein, um filósofo conhecido por suas ideias provocativas.
"O sentido da vida está na pergunta, não na resposta," disse Dr. Eisenstein, com um sorriso enigmático. "Qual é sua pergunta, João?"
João ficou perplexo. Ninguém havia lhe feito essa pergunta antes.
O Mundo das Sombras
Dr. Eisenstein levou João a uma caverna escura, onde sombras dançavam nas paredes.
"Imagine prisioneiros aqui, vendo sombras na parede," disse. "Eles acreditam que as sombras são a realidade."
"Mas não é?" perguntou João.
"Não," respondeu Dr. Eisenstein. "A verdadeira realidade está fora da caverna. As sombras são apenas reflexos."


O Livre-Arbítrio

Dr. Eisenstein desafiou João: "Escolha entre destino e liberdade. Qual é sua escolha?"
João hesitou. "Liberdade," disse finalmente.
O Debate da Insignificância
Zé Roela e Nadalir apareceram.

"Somos todos insignificantes," disse Zé Roela.

"Não," respondeu Dr. Eisenstein. "A insignificância é relativa. O sentido da vida é pessoal."

"Só sei que nada sei agora, doutor," rebateu Nadalir.


A Busca pelo Significado

João refletiu sobre sua jornada. "O sentido da vida não é uma resposta, é uma pergunta constante."


A Busca pelo Nada

Dr. Eisenstein perguntou: "O que vê aqui em minhas mãos, João?"

"Nada," respondeu João.

Zé Roela: "Um punhado de dedos, doutor."

Nadalir: "Vejo que está precisando dar uma lavada nela!"

João: "Eu vejo os vãos dos dedos."

Dr. Eisenstein: "Ótima resposta! E o que há entre os dedos?"

"Nada," disse João.

Dr. Eisenstein sorriu: "Todos estão certos. Sem o nada, não haveria o todo."


Epílogo: O Ciclo das Perguntas

João continuou sua jornada filosófica. Dr. Eisenstein sorriu: "Muitas vezes a única resposta é a pergunta... Ao menos por enquanto."


Agradecimentos

Agradeço a todos que acompanharam João em sua jornada filosófica.


Referências

- Platão, "A República"

- Friedrich Nietzsche, "Assim Falou Zaratustra"

- Jean-Paul Sartre, "O Ser e a Nada"


Sobre o autor

Sodré, escritor e filósofo, explorando os limites da realidade.


 

O Sentido da Insignificância


Eu busco o sentido em um mundo sem escalas, onde cada passo é como um grão de areia na praia do tempo. Meu nome é João, mas poderia ser qualquer outro, pois não faz a menor diferença. Minha vida é um ponto no universo, procurando o próximo ponto - mas para quê?

Encontrei um grupo de apoio para pessoas insignificantes, chamado IA (Insignificantes Anônimos). O líder, Nadalir, um homem com um sorriso irônico, deu-me boas-vindas (não sei porquê).

"Bem-vindo, João. Aqui, você não é apenas um átomo, é um universo inteiro de insignificância."

"Obrigado... acho", respondi.

O grupo começou, então, a competir por quem era mais insignificante.

Zé: "Eu me sinto como uma gota d'água no oceano."
Zé da Pamonha: "Eu me sinto como um vazio no milharal."
Zé Roela: "Eu sou uma partícula de poeira em um ventilador quebrado." 
Zé do Taxi: "Todas as minhas direções levam a lugar nenhum."
Zé Corinthiano: "Chuto, chuto, chuto e nunca acerto o gol."
Zé Peixes: "Eu nado e nada."
Zé das Conchas: "Olho para dentro de mim e só encontro areia."

Nadalir sorriu: "Vocês estão todos errados. Vocês são muito mais insignificantes do que isso. Isso não é nada. Vocês precisam alcançar o nirvana do 'nada absoluto'."

E então, propôs um desafio: encontrar o menor impacto possível no mundo.

Eu me perguntei: "Será que a insignificância é um destino ou uma escolha?" Não, não poderia ser isso - sou sim, tão menos que nada, pois só o nada tem a capacidade de ter algo. Nem isso tenho.

Agradeci ao líder e aos participantes e reiniciei meu destino ao meu lar... ou assim pensei. Mas... ôxe! Cadê minha casa? Vejo nada!


Insignificante consideração final do autor:

Talvez o sentido da vida seja não encontrar sentido algum. E isso é libertador. Ou não. Quem sabe? Talvez seja apenas uma questão de perspectiva.

domingo, 1 de dezembro de 2024

"O Maestro e o Abismo"


"Quando você olha por muito tempo para um abismo, o abismo também olha para dentro de você." - Friedrich Nietzsche


O maestro posiciona-se, corpo ereto, cabelos longos, brancos e emaranhados. Em sua vestimenta inebriante, como se nunca a usara antes, o intérprete das claves e seus negros símbolos respira e eleva seus braços para segurar a batuta – inquietação.


Olha à sua frente: dezenas de almas musicalizadas representam seus instrumentos oníricos – devoção. Aguardando o sinal do mestre, que com olhos atentos e perspicazes sedento está para introduzir cada um de seus personagens no momento e intensidades corretas – apreensão.


Ao primeiro movimento, as madeiras elevam cordialmente o público aos céus de Dante (que não o conhecera) – emoção. O maestro emociona-se, ouvindo suas lágrimas de deleite provindas de seu mais puro amor ao criador. Ali era seu momento de encontro com o divino – conexão. Uma busca desesperada pelo perdão de seus mais egoístas sentimentos e convicções artísticas. Seu abismo, ao acreditar piamente que seus gostos musicais eram os únicos relevantes à humanidade – remissão.


As vozes, sim. A alma da peça. Tenores, sopranos, barítonos e contraltos em perfeita dança harmônica trazem ao público um convite ao silêncio – comunhão. Sim, pois ao divino devemos silenciar nossos porquês, dando espaço à alma. Momento esse que o maestro sente que apenas nessa hora suas vozes calam-se. A chave da conexão com o infinito é apresentada.


A ascensão aos céus poderia traduzir esse momento na sua mais nobre definição da perfeição. Mas o maestro precisa olhar ao seu redor, e em um rompante dinâmico suas vozes o remetem ao abismo, olhando assim para baixo. Sua ascensão possui um preço: o abandono de sua sombra. Ambos então duelam com a mudança dinâmica das belas vozes em uma triste referência à realidade. Os céus deveriam aguardar.


As percussões, em suas marcações silenciosas, dão espaço à imaginação, como a de um lago refletindo seu próprio reflexo. O maestro encontra seu espelho fragmentado pelas várias sessões da orquestra, levando-o ao infinito de suas finitas possibilidades. O êxtase é silenciado com doçura e paz celestial, junto ao tormento do inacabado.


Seus braços delicadamente em movimento de pouso tocam seu corpo, e por aquele breve momento não havia mais eu, nem mais abismo – maestro.

sábado, 30 de novembro de 2024


 

encontros

gosto de acreditar que as pessoas pelas quais cruzamos em nossos caminhos não foram
inventadas pelo simples e puro deleite do acaso.

nesse caso, talvez, queira apenas justificar meu arrebatado romantismo drummoniano – amor
incontestável pelo próprio amor. mas realmente dispenso o acaso – dispenso os bons modos, dispenso a etiqueta.

apenas penso. apenas sou.

gosto também de acreditar que encontros não possuem receita:

INGREDIENTES:

2 pessoas: 20 se for muito sociável e um tanto quanto livre de grilhões.

1 ambiente agradável: não se espante ao descobrir que tal ambiente venha a ser uma esquina qualquer.

amor: só use se realmente acreditar nele. caso contrário tente um pouco de bom sexo. funciona? não sei. espero que sim.

MODO DE PREPARO:
Una todos os ingredientes e espere pelo resultado. algumas pessoas esquecem o que estavam a preparar; outras oram a deus ou ao diabo pelo sucesso de sua receita. dê preferência ao meio termo. ou ao amor*, caso o tenha utilizado.

BOM APETITE !!!

*só para relembrar: amor é aquele ingrediente que só funciona se você crê nele. se optou pelo sexo, ou pelos dois, espero que tenha usado proteção.

gosto de acreditar que os encontros são gerados pelo antagonismo magnético. 
não pergunte-me o que é. acho que nem eu mesmo o saberia. e nem o quero. 

aqui o penso. aqui o sou .

todos esses desejos encontram-se no infinito. 

ao menos aqui nesse universo todo e só meu.

gosto de acreditar que os encontros são atemporais. 

ao menos os bons encontros. nosso encontro.
gosto de acreditar que meu bom-encontro está por vir.

encontre-se.

encontro-me.

encontremo-nos.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

reflexo à beira do rio

Aqui onde moro, caminhadas invariavelmente levam à beira de algum rio. Um privilégio que aos poucos são mais raros, haja vista que a sede contemporânea pelo urgente deixa-nos imersos em um universo de cegueira cotidiana.

Porém, em uma destas caminhadas, encontrei-me com um velho conhecido. Quando criança costumava chamá-lo de Destino. É Destino. Achava de forma inconsciente um belo nome para um rio, pois sabia onde ele estava, mas não fazia a mínima ideia de para onde destinava-se o tal Destino.

Diziam as sábias vozes dos experientes adultos: "seu rumo é em direção ao mar".

Ao mar? Mas o rio é doce! Ele vira mar? Morre então? Mas...mas...ele quer transformar-se em mar?

Pobre Destino, talvez nem ele soubesse. Destino quer, ou é obrigado a ser algo que nem sabe o que?. Que aburdo!

Talvez ele não tenha escolha. Talvez Destino nem escolhera ser rio. Talvez pedira para ser mar, árvore, pedra, urso, vespa, gente - é...gente não - duvido que Destino pedisse por um destino tão cruel.

Olho para ele atentamente, mas não o reconheço. Em nosso último encontro ele parecia diferente. Mais alegre, mais potente, mais empenhado em vencer as curvas que o solo lhe impunha.

Hoje o observo mais cabisbaixo, mais temeroso, ouso a dizer, mais acanhado.

Talvez todo o lixo que ele transportara até aqui, o esteja impedindo de prosseguir em sua brava jornada até o tal de mar. Mas, quem o poluíra tanto, e como Destino permitiu que algo que não fosse de sua natureza, trancafiasse sua essência?

Destino talvez tivesse entregado-se ao destino. Mas então Destino também teria um destino? Qual o destino de Destino?

Não sei responder, mas ao observar meu reflexo em outrara magnífico rio, noto que eu também havia sido como ele: vibrante, obstinado, valente ansiando para ser um mar. 

Hoje sou rio? Sou mar?

Sou valente? Impotente?

Obstinado? Conformado?

Bravo? Covarde?

Eu nado ou nada?

Talvez mares já não despertem mais minha curiosidade. Afinal de contas o que é ela, a curiosidade, senão a ânsia em descobrir o que não se sabe?

Eu nada. Não nado.

Coloco meus pés à beira de Destino. Ele transforma-se como se houvesse ainda um quinhão de esperança em sua reunião de infinitas gotas gélidas.

Meu corpo reage, como na tentativa de dizer: "Sim, eu ainda nado".

Mas(mais?)nada.

 





segunda-feira, 18 de novembro de 2024

savana

os ventos da savana  vem a mim como um implorar sem temor e sem orgulho.

chegam de repente como um vulto e marcam sua chegada como um rugido ou uivo.

os sons chegam a mim clamando por reflexão, e neste momento descubro que não estava na savana, mas ela em mim.

e no meio dela encontro-me diante de um rio, ao qual vejo meu reflexo e quando percebo pulo na água, não como Narciso, não por vaidade, mas para submergir em meu ser e tentar me entender.

mas porém, como diz o poeta, "narciso acha feio tudo o que não é espelho." todavia não naquele momento. lá descobri-me de meus véus e máscaras e fui apenas...

eu.

deaazê

A tristeza incendeia

B ela a brincar com nossa imaginação 

C ovardemente também vicia

D ando vazão a sentimentos sem sentido

E em sua voracidade 

F orja em nossas almas o

G élido sentimento de solidão

H erculeamente luto, maldita tristeza

I gnoro sua sedução 

J á que usa-me de brinquedo

K afkaniano serei, transformar-me-ei

L amurio pois de sua fanfarronice 

M inha dor não é de zanga, mas fleuma

N ão traga-me seus sedutores véus 

O s que aceitei avoaram-se ao léu 

P ois siga seu destino, tristeza

Q uiçá para longe de meu ser

R oedora de minhas vísceras foi

S olícita e airosa como uma amiga

T odavia perigosa

U ma,  única e venenosa 

V á de retro serpente

W alter em suas belas composições 

X ícaras de chá sejam servidas

Y in-yang entre nós já não existe mais

Z ombo finalmente por você ser incapaz




éfe

no eco suave das guitarras
vibra a melodia dos sonhos,
onde vozes se entrelaçam
como versos antigos,
desvendando segredos
de terras distantes.

ali, os poemas fluem como rios,
serenando corações aflitos,
nutrindo as raízes do ser
com a sabedoria do vento.

nos olhos da alma,
reflete-se o horizonte,
onde as estrelas dançam
ao som de uma canção
que só os puros podem ouvir.

éfe, o nome sussurrado no silêncio,
é a bússola que guia
pelas trilhas da memória,
onde o passado e o futuro
se encontram em um abraço eterno.

nas cordas da guitarra,
reside o pulsar da vida,
e cada nota toca fundo,
despertando a essência
que repousa nas profundezas do ser.

éfe, onde a poesia se torna palpável,
onde as palavras são lâminas
que cortam o véu da realidade,
revelando a verdade pura
oculta em cada batida,
em cada olhar,
em cada respiro de eternidade.

longe de casa

a leveza do ar contrastava com a intensidade da luz deste dia. a caminhar estava -  chutando latinhas na rua. O som do metal refletia como um alerta a meus ouvidos: “acorde”. 

naquele momento era apenas uma pessoa longe de casa. longe de mim. fugindo.

observava imperfeições  em tudo. esta visão trazia um espelho à minha frente. mais latinhas surgiam e eu as chutava. as chutava e seu som metálico enlouquecia-me. por que arde tanto? por que fere-me tanto?

eu era apenas uma pessoa longe de casa. não conseguia entender.

desisti então de chutá-las. catei-as pois. observei-as. senti o frio metal em minhas mãos. o calor do sol as aqueceu...sim, não posso chutar as latinhas pois preciso colhê-las. 

eu era apenas uma pessoa longe de casa. começando a entender.

observá-las de perto...ahhhhhh….que horror!!! a complexidade de perceber que minhas latinhas amassadas nunca mais voltariam ao que um dia foram deixou-me devastada.

mas eu era apenas uma pessoa longe de casa. e queria entender.

cansada, sento-me. eu era apenas uma pessoa longe de casa. aprendendo a entender.

avisto em meu horizonte uma bela construção. imperfeita. 

Pessoas sorrindo dentro dela. Cantando ao dançar. Percebo em sua imperfeição a perfeição. 

sorrio. entendo. 

fui apenas uma pessoa longe de casa. 

e agora entendo.

navegar

outrora dito foi-me que os ventos deveriam guiar-me, não ancorar-me ao mar. a prisão orar.

dela desfiz-me, e ao vento naveguei, sem a menor intenção de obedecer. 

eis que sua bravura e sua angústia levam-me a perguntar: Onde estou?
e ainda a indagar, onde vou?

por agora devo contentar-me com os ensinamentos passados pelos ventos? ora agitado, ora calmo, encontro-me a pensar e a navegar,
sentindo a brisa que bate em meu peito e o balanço do mar.

uma tempestade chegou a resvalar,
a água salgada em sua agitação veio a me atingir.

uma ferida que tinha ardeu e pus-me a refletir.

por quê? não deveria também o mar guiar-me?

entendi pois que o vento sem propósito, propósito não possui. quem a tudo está disposto, disposto a nada está. mas havia um horizonte diante da tempestade. 

sempre há um guia quando abrimos nossos olhos e fugimos de nosso egocêntrico eu.

guia-me. guia-me. 

mas quem? 

venha aqui

em meus primeiros suspiros ouvi estas palavras. Saindo do ventre de minha mãe foi-me dito. “venha aqui”. 

isto por si só corrompia-me. eu não queria ir lá. consciente do que estaria por acontecer, apenas gostaria de estar em meu próprio caminho. possuía um nome não escolhido por mim, possuía uma família não escolhida por mim e perspectivas e expectativas que nunca foram as minhas.

a trilha e as procuras foram intensas desde o início, mas havia grilhões que não consegui vencer. fazer aquilo que desejei sempre foi sufocado por aquilo que desejaram de mim. e assim o fiz, assim optei.

uma opção mais que tola e incoerente. “venha aqui”

poderia ter tido o reverso. Eu gosto de matas virgens e seria  nelas que me encontraria. eu gosto do novo e não no que há tempos faz sentido. demorei muito...e as matas foram (talvez) extintas.

“venha aqui” aprenda isso, aprenda aquilo! não ... .eu não quero aprender nada pronto. eu quero desbravar. 

não mande-me para onde queres que eu vá, pois não irei. quero ser dono do meu próprio destino, certo ou errado quero ter este direito. danem-se vocês príncipes da vida. almejo ser o bufão que a todos faz rir enquanto as lágrimas não consegue conter. 

“venha aqui”.

e acorrentado às decisões alheias, o pranto chegou, porém ele possuía uma cura. 

o amargo gosto da fuga aproximou-se e transformou-se em amigo. a realidade transformou-se em um mundo de faz de contas e o universo foi amenizado com uma errônea forma de felicidade.

“venha aqui”  

e desta vez quem disse-me isso foi o delírio da surrealidade e eu o abracei.

troquei um grilhão pelo outro.

“venha aqui”

não irei.